Religiosidades negras: resistência e intolerância

Nesta semana, a Faculdade Cásper Líbero realiza a semana de debates sobre Raça, Resistência e Identidades.

Na terça (18), o debate foi acerca do tema “Religiosidades Negras” e contou com a presença do Pai de Santo e sociólogo, Delton Crispin, e a Dra. Francirosy Barbosa*, antropóloga e professora da USP – Ribeirão Preto. Mediados pela Profa. Dra. Sandra Goulart, discutiram a intolerância que existe com relação às religiões afrobrasileiras, como Umbanda e Candomblé, e ao Islã. 

Para introduzir o tema foi exibido o curta-metragem “EXU – Além do Bem e do Mal”. Dirigido por Werner Salles Bagetti, o documentário investiga a reputação do orixá Exu – presente na Umbanda e no Candomblé -, que é interpretado, erroneamente, como o diabo, pelos católicos. Entre os entrevistados estão os babalorixás Manoel Papai, Pai Célio de Iemanjá e Pai Manoel do Xoroquê, Mãe Edilene e o antropólogo pernambucano Roberto Motta. 

"Ser negro no Brasil é ser silenciado, não importa a religião" - Profa. Dra. Francirosy Barbosa

Antes de prosseguir, acho importante parar para diferenciar Umbanda de Candomblé. O Pai de Santo Delton Crispin diferenciou as duas, brevemente, dizendo que a Umbanda faz uso dos deuses do Candomblé, mas também incorpora histórias dos povos ameríndios e possui sincretismo com o cristianismo. O Candomblé é apenas o culto dos orixás afrobrasileiros. 

Ele foi à palestra com o traje típico de um babalorixá e aproveitou para usar suas vestimentas como um exemplo de intolerância religiosa: “Só de ver como o outro me olha quando uso essa roupa já percebo o preconceito. Está ficando perigoso até sair com uma roupa dessas na rua”, disse.

Em 2007 foi instituída uma lei que torna crime a intolerância religiosa. No entanto, como contou babá Crispin, isso não significa que a questão foi superada no Brasil. Segundo dados da Secretaria dos Direitos Humanos, apenas em 2014 foram registrados 149 denúncias de discriminação religiosa no país, em 2013, foram 228 denúncias. O Rio de Janeiro é o estado com mais relatos de intolerância religiosa no país. 

Babá Crispin afirmou que a violência parte, geralmente, de evangélicos, de acordo com a experiência pessoal dele. É importante pontuar que, no fim de 2014, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) criou o grupo “Gladiadores do Altar”. De caráter paramilitar, o projeto chocou a muitos depois de ter sido divulgado um vídeo em que os integrantes marchavam e diziam estar “prontos para a batalha”. A iniciativa tem preocupado líderes de religiões afrobrasileiras

Diante disso, religiosos fizeram pedidos formais ao Ministério Público Federal, em 24 capitais, pedindo a investigação do grupo. Apenas o MPF da Bahia abriu inquérito. “Você acha que o aparato do Estado vai te proteger, mas não protege”, disse babá Crispin. E a Profa. Barbosa completou, “A gente não pode só esperar do Estado uma política pública [para que a situação melhore]. O bom seria não ter leis, seria as pessoas terem consciência”.

Segundo Habermas, o pluralismo religioso só é possível num estado laico, como o que vivemos hoje no Brasil (teoricamente). Entretanto, ainda chocam casos de violência fruto do racismo e intolerância religiosa. O mais recente caso – divulgado pela mídia -, que aconteceu em junho, foi o da jovem candomblecista de 11 anos que levou uma pedrada na cabeça e ainda foi chamada de “macumbeira”, por dois homens, no Rio.

Apesar de ser uma das vítimas dessa intolerância, Pai de Santo Delton Crispin não generaliza o preconceito a todos os evangélicos, por exemplo, e não guarda raiva. “A lei deve servir para todas as vias. Eu não gostaria que um evangélico fosse agredido por alguém da minha religião, mesmo que algum evangélico me agrida”, finalizou ele. 

Os palestrantes: à esquerda a Profa. Sandra Goulart, ao centro o Pai de Santo Delton Crispin, e à direita a Profa. Francirosy Barbosa. (Foto: Camila Alvarenga)
Os palestrantes: à esquerda a Profa. Sandra Goulart, ao centro o Pai de Santo Delton Crispin, e à direita a Profa. Francirosy Barbosa. (Foto: Camila Alvarenga)

* Ela desenvolveu uma pesquisa – que levou a um documentário chamado “Allah, Oxalá na trilha Malê” – sobre a Revolta dos Malês, um levante de negros muçulmanos contra a escravidão, em 1835, época do Brasil Império. Nesse documentário, Sheikh Ahmed e Mãe Cici contam as tradições do Islã e do Candomblé, respectivamente; as influências que uma religião teve na outra, e a resistência das duas crenças dentro da sociedade racista em que vivemos.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s